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GlP-1

Canetas emagrecedoras: por que o tratamento com GLP-1 precisa de muito mais do que uma aplicação

O fenômeno das canetas emagrecedoras

Nos últimos anos, os medicamentos que atuam sobre o sistema incretínico, especialmente os agonistas do receptor de GLP-1 e os medicamentos que combinam ação sobre GLP-1 e GIP, transformaram o tratamento da obesidade e ganharam enorme espaço nas conversas sobre emagrecimento.

Semaglutida, liraglutida e tirzepatida passaram a fazer parte da rotina de muitos pacientes, enquanto as chamadas “canetas emagrecedoras” se tornaram cada vez mais conhecidas pelo público.

O crescimento é expressivo também no Brasil. Dados nacionais mostram uma expansão importante da utilização dos agonistas de GLP-1 nos últimos anos. A partir de junho de 2025, registros do sistema de dispensação brasileiro contabilizaram mais de 577 mil unidades de agonistas de GLP-1. Esse número não significa, porém, que existam 577 mil usuários, já que uma mesma pessoa pode receber mais de uma dispensação ao longo do tratamento.

O dado mais importante é outro: estamos diante de uma classe de medicamentos que passou a fazer parte da realidade de um número cada vez maior de pessoas — e isso exige informação, acompanhamento e responsabilidade.

Mas o que são os medicamentos GLP-1?

O GLP-1 é um hormônio produzido naturalmente pelo organismo que participa da regulação da glicemia, da saciedade e da ingestão alimentar.

Os medicamentos que atuam nesse sistema podem aumentar a sensação de saciedade, reduzir a fome e retardar o esvaziamento gástrico, fazendo com que muitas pessoas naturalmente passem a comer menos.

É justamente aí que surge um dos grandes pontos de atenção do tratamento:

comer menos não significa necessariamente estar se alimentando melhor.

Uma pessoa pode reduzir bastante a quantidade de comida e, ainda assim, consumir pouca proteína, poucas fibras, micronutrientes insuficientes e uma quantidade inadequada de energia.

Por isso, o tratamento não deveria ser resumido à aplicação de uma caneta.

A caneta não substitui o tratamento

Os medicamentos podem ser ferramentas importantes no tratamento da obesidade, mas não devem ser encarados como uma solução isolada.

A própria Organização Mundial da Saúde destaca que as terapias com GLP-1 devem fazer parte de uma abordagem abrangente, que inclua alimentação saudável, atividade física e acompanhamento por profissionais de saúde.

Isso muda completamente a perspectiva.

O objetivo não é simplesmente fazer a balança diminuir.

É promover redução de gordura corporal, preservação de massa muscular, melhora metabólica, qualidade alimentar, funcionalidade e manutenção dos resultados ao longo do tempo.

Onde entra a nutrição?

É justamente nesse momento que o acompanhamento nutricional se torna ainda mais importante.

Quando o apetite diminui, o paciente pode passar muitas horas sem fome e começar a fazer refeições pequenas demais. Em algumas situações, isso pode dificultar o consumo adequado de proteínas, fibras, vitaminas, minerais e líquidos.

O planejamento alimentar precisa acompanhar a nova realidade do paciente.

Entre os pontos que podem ser avaliados durante o acompanhamento estão:

  • ingestão proteica e distribuição da proteína ao longo do dia;

  • qualidade das fontes alimentares;

  • consumo de frutas, verduras e legumes;

  • ingestão de fibras, respeitando a tolerância gastrointestinal;

  • hidratação;

  • funcionamento intestinal;

  • ingestão energética;

  • sintomas gastrointestinais;

  • evolução do peso e da composição corporal;

  • preservação de massa muscular;

  • prática de treinamento de força;

  • possíveis inadequações nutricionais;

  • comportamento alimentar e relação com a comida.

A estratégia não deve ser simplesmente “comer o mínimo possível”.

O objetivo é fazer com que o menor volume alimentar possível continue oferecendo o máximo de qualidade nutricional possível.

O risco de emagrecer e perder músculo

Um dos pontos que merece atenção durante o tratamento é a composição do peso perdido.

Quando a ingestão alimentar cai significativamente, existe o risco de que parte da perda de peso seja acompanhada por redução de massa magra.

Por isso, a combinação entre alimentação adequada e exercício físico — especialmente treinamento de força — é fundamental.

O acompanhamento não deveria observar apenas o número apresentado pela balança.

Também é importante acompanhar, quando possível:

peso + composição corporal + força + medidas corporais + ingestão alimentar + sintomas + evolução clínica.

Em outras palavras: perder peso é diferente de melhorar a composição corporal.

E os efeitos gastrointestinais?

Náusea, vômitos, constipação e diarreia estão entre os efeitos adversos mais conhecidos dessas terapias.

Por isso, o acompanhamento precisa considerar a tolerância individual.

Uma alimentação que funcionava bem antes do início da medicação pode precisar de ajustes durante o tratamento.

Volume das refeições, velocidade ao comer, quantidade de gordura, fibras, hidratação e escolha dos alimentos podem fazer diferença para a tolerância gastrointestinal.

Sintomas intensos ou persistentes, entretanto, não devem ser tratados apenas com mudanças na alimentação. Devem ser comunicados ao profissional responsável pelo tratamento.

A Anvisa também reforçou em 2026 a importância do uso correto desses medicamentos e alertou para o risco aumentado de eventos adversos quando há utilização inadequada ou fora das indicações aprovadas.

Existe um “protocolo nutricional” para quem usa GLP-1?

Não existe um cardápio universal que possa ser aplicado a todas as pessoas que utilizam uma caneta.

O protocolo precisa ser individualizado.

Antes e durante o tratamento, a equipe pode avaliar:

1. Antes de iniciar

  • histórico clínico;

  • indicação do medicamento;

  • medicamentos em uso;

  • histórico de peso;

  • comportamento alimentar;

  • consumo proteico;

  • ingestão de fibras e líquidos;

  • rotina de atividade física;

  • composição corporal, quando disponível;

  • exames laboratoriais pertinentes;

  • presença de sintomas gastrointestinais;

  • possíveis deficiências ou inadequações nutricionais.

2. Durante a adaptação

O foco passa a ser tolerância, hidratação, qualidade alimentar e manutenção de uma ingestão nutricional adequada.

O paciente precisa aprender a reconhecer sinais de fome e saciedade e adaptar o tamanho das refeições sem transformar a redução do apetite em restrição nutricional excessiva.

3. Durante a perda de peso

É importante acompanhar não apenas quanto peso está sendo perdido, mas o que está sendo perdido.

A manutenção da massa muscular deve ser uma prioridade.

Proteína adequada, alimentação de qualidade e exercício de força passam a ter papel ainda mais importante.

4. Durante a manutenção

Um dos grandes desafios é transformar o período de tratamento em uma oportunidade para consolidar novos comportamentos.

A pessoa precisa aprender a manter uma alimentação adequada mesmo quando a fome estiver maior ou quando o medicamento for reduzido, ajustado ou eventualmente suspenso.

O que não devemos fazer

O crescimento das canetas também trouxe uma série de práticas preocupantes.

Não é seguro:

  • utilizar medicamento sem avaliação e prescrição adequadas;

  • comprar produtos de origem desconhecida;

  • utilizar produtos sem registro sanitário;

  • modificar doses por conta própria;

  • copiar o esquema de outra pessoa;

  • associar medicamentos sem orientação;

  • interpretar a redução do apetite como autorização para comer cada vez menos;

  • ignorar sintomas importantes;

  • abandonar o acompanhamento nutricional porque “a caneta já tira a fome”.

A Anvisa vem realizando ações específicas contra produtos irregulares e reforçando a necessidade de prescrição, dispensação e acompanhamento responsáveis.

A caneta pode ser uma ferramenta. Mas não deve ser o tratamento inteiro.

A chegada dos medicamentos GLP-1 representa uma mudança importante no tratamento da obesidade.

Mas precisamos evitar dois extremos.

De um lado, tratar essas medicações como uma solução milagrosa.

Do outro, ignorar o potencial terapêutico que elas podem oferecer quando corretamente indicadas e acompanhadas.

A melhor abordagem está no meio:

medicamento quando indicado + acompanhamento médico + nutrição individualizada + atividade física + monitoramento + mudança de comportamento + acompanhamento de longo prazo.

A obesidade é uma condição crônica e complexa. Por isso, o tratamento também precisa ser pensado como um processo contínuo — e não como uma corrida para perder o maior número de quilos no menor tempo possível.

O papel da nutrição nessa nova era

Talvez nunca tenha sido tão importante falar sobre nutrição para pessoas que estão emagrecendo.

Quando a fome diminui, precisamos olhar ainda mais para a qualidade daquilo que permanece no prato.

Não se trata de obrigar o paciente a comer grandes quantidades.

Trata-se de nutrir adequadamente um organismo que está recebendo menos energia.

E essa é uma diferença fundamental.

A pergunta deixa de ser apenas:

“Quanto peso você perdeu?”

E passa a ser:

“Como você perdeu esse peso, o que preservou durante o processo e o que está construindo para conseguir manter o resultado?”

É nesse ponto que o tratamento deixa de ser apenas sobre emagrecimento e passa a ser sobre saúde.


Conteúdo educativo. O uso de medicamentos agonistas de GLP-1 deve ocorrer mediante indicação, prescrição e acompanhamento de profissional habilitado. Este conteúdo não substitui avaliação médica ou nutricional individualizada.

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