GlP-1
- Gislaine Nogueira
- 24 de ago.
- 6 min de leitura
Canetas emagrecedoras: por que o tratamento com GLP-1 precisa de muito mais do que uma aplicação
O fenômeno das canetas emagrecedoras
Nos últimos anos, os medicamentos que atuam sobre o sistema incretínico, especialmente os agonistas do receptor de GLP-1 e os medicamentos que combinam ação sobre GLP-1 e GIP, transformaram o tratamento da obesidade e ganharam enorme espaço nas conversas sobre emagrecimento.
Semaglutida, liraglutida e tirzepatida passaram a fazer parte da rotina de muitos pacientes, enquanto as chamadas “canetas emagrecedoras” se tornaram cada vez mais conhecidas pelo público.
O crescimento é expressivo também no Brasil. Dados nacionais mostram uma expansão importante da utilização dos agonistas de GLP-1 nos últimos anos. A partir de junho de 2025, registros do sistema de dispensação brasileiro contabilizaram mais de 577 mil unidades de agonistas de GLP-1. Esse número não significa, porém, que existam 577 mil usuários, já que uma mesma pessoa pode receber mais de uma dispensação ao longo do tratamento.
O dado mais importante é outro: estamos diante de uma classe de medicamentos que passou a fazer parte da realidade de um número cada vez maior de pessoas — e isso exige informação, acompanhamento e responsabilidade.
Mas o que são os medicamentos GLP-1?
O GLP-1 é um hormônio produzido naturalmente pelo organismo que participa da regulação da glicemia, da saciedade e da ingestão alimentar.
Os medicamentos que atuam nesse sistema podem aumentar a sensação de saciedade, reduzir a fome e retardar o esvaziamento gástrico, fazendo com que muitas pessoas naturalmente passem a comer menos.
É justamente aí que surge um dos grandes pontos de atenção do tratamento:
comer menos não significa necessariamente estar se alimentando melhor.
Uma pessoa pode reduzir bastante a quantidade de comida e, ainda assim, consumir pouca proteína, poucas fibras, micronutrientes insuficientes e uma quantidade inadequada de energia.
Por isso, o tratamento não deveria ser resumido à aplicação de uma caneta.
A caneta não substitui o tratamento
Os medicamentos podem ser ferramentas importantes no tratamento da obesidade, mas não devem ser encarados como uma solução isolada.
A própria Organização Mundial da Saúde destaca que as terapias com GLP-1 devem fazer parte de uma abordagem abrangente, que inclua alimentação saudável, atividade física e acompanhamento por profissionais de saúde.
Isso muda completamente a perspectiva.
O objetivo não é simplesmente fazer a balança diminuir.
É promover redução de gordura corporal, preservação de massa muscular, melhora metabólica, qualidade alimentar, funcionalidade e manutenção dos resultados ao longo do tempo.
Onde entra a nutrição?
É justamente nesse momento que o acompanhamento nutricional se torna ainda mais importante.
Quando o apetite diminui, o paciente pode passar muitas horas sem fome e começar a fazer refeições pequenas demais. Em algumas situações, isso pode dificultar o consumo adequado de proteínas, fibras, vitaminas, minerais e líquidos.
O planejamento alimentar precisa acompanhar a nova realidade do paciente.
Entre os pontos que podem ser avaliados durante o acompanhamento estão:
ingestão proteica e distribuição da proteína ao longo do dia;
qualidade das fontes alimentares;
consumo de frutas, verduras e legumes;
ingestão de fibras, respeitando a tolerância gastrointestinal;
hidratação;
funcionamento intestinal;
ingestão energética;
sintomas gastrointestinais;
evolução do peso e da composição corporal;
preservação de massa muscular;
prática de treinamento de força;
possíveis inadequações nutricionais;
comportamento alimentar e relação com a comida.
A estratégia não deve ser simplesmente “comer o mínimo possível”.
O objetivo é fazer com que o menor volume alimentar possível continue oferecendo o máximo de qualidade nutricional possível.
O risco de emagrecer e perder músculo
Um dos pontos que merece atenção durante o tratamento é a composição do peso perdido.
Quando a ingestão alimentar cai significativamente, existe o risco de que parte da perda de peso seja acompanhada por redução de massa magra.
Por isso, a combinação entre alimentação adequada e exercício físico — especialmente treinamento de força — é fundamental.
O acompanhamento não deveria observar apenas o número apresentado pela balança.
Também é importante acompanhar, quando possível:
peso + composição corporal + força + medidas corporais + ingestão alimentar + sintomas + evolução clínica.
Em outras palavras: perder peso é diferente de melhorar a composição corporal.
E os efeitos gastrointestinais?
Náusea, vômitos, constipação e diarreia estão entre os efeitos adversos mais conhecidos dessas terapias.
Por isso, o acompanhamento precisa considerar a tolerância individual.
Uma alimentação que funcionava bem antes do início da medicação pode precisar de ajustes durante o tratamento.
Volume das refeições, velocidade ao comer, quantidade de gordura, fibras, hidratação e escolha dos alimentos podem fazer diferença para a tolerância gastrointestinal.
Sintomas intensos ou persistentes, entretanto, não devem ser tratados apenas com mudanças na alimentação. Devem ser comunicados ao profissional responsável pelo tratamento.
A Anvisa também reforçou em 2026 a importância do uso correto desses medicamentos e alertou para o risco aumentado de eventos adversos quando há utilização inadequada ou fora das indicações aprovadas.
Existe um “protocolo nutricional” para quem usa GLP-1?
Não existe um cardápio universal que possa ser aplicado a todas as pessoas que utilizam uma caneta.
O protocolo precisa ser individualizado.
Antes e durante o tratamento, a equipe pode avaliar:
1. Antes de iniciar
histórico clínico;
indicação do medicamento;
medicamentos em uso;
histórico de peso;
comportamento alimentar;
consumo proteico;
ingestão de fibras e líquidos;
rotina de atividade física;
composição corporal, quando disponível;
exames laboratoriais pertinentes;
presença de sintomas gastrointestinais;
possíveis deficiências ou inadequações nutricionais.
2. Durante a adaptação
O foco passa a ser tolerância, hidratação, qualidade alimentar e manutenção de uma ingestão nutricional adequada.
O paciente precisa aprender a reconhecer sinais de fome e saciedade e adaptar o tamanho das refeições sem transformar a redução do apetite em restrição nutricional excessiva.
3. Durante a perda de peso
É importante acompanhar não apenas quanto peso está sendo perdido, mas o que está sendo perdido.
A manutenção da massa muscular deve ser uma prioridade.
Proteína adequada, alimentação de qualidade e exercício de força passam a ter papel ainda mais importante.
4. Durante a manutenção
Um dos grandes desafios é transformar o período de tratamento em uma oportunidade para consolidar novos comportamentos.
A pessoa precisa aprender a manter uma alimentação adequada mesmo quando a fome estiver maior ou quando o medicamento for reduzido, ajustado ou eventualmente suspenso.
O que não devemos fazer
O crescimento das canetas também trouxe uma série de práticas preocupantes.
Não é seguro:
utilizar medicamento sem avaliação e prescrição adequadas;
comprar produtos de origem desconhecida;
utilizar produtos sem registro sanitário;
modificar doses por conta própria;
copiar o esquema de outra pessoa;
associar medicamentos sem orientação;
interpretar a redução do apetite como autorização para comer cada vez menos;
ignorar sintomas importantes;
abandonar o acompanhamento nutricional porque “a caneta já tira a fome”.
A Anvisa vem realizando ações específicas contra produtos irregulares e reforçando a necessidade de prescrição, dispensação e acompanhamento responsáveis.
A caneta pode ser uma ferramenta. Mas não deve ser o tratamento inteiro.
A chegada dos medicamentos GLP-1 representa uma mudança importante no tratamento da obesidade.
Mas precisamos evitar dois extremos.
De um lado, tratar essas medicações como uma solução milagrosa.
Do outro, ignorar o potencial terapêutico que elas podem oferecer quando corretamente indicadas e acompanhadas.
A melhor abordagem está no meio:
medicamento quando indicado + acompanhamento médico + nutrição individualizada + atividade física + monitoramento + mudança de comportamento + acompanhamento de longo prazo.
A obesidade é uma condição crônica e complexa. Por isso, o tratamento também precisa ser pensado como um processo contínuo — e não como uma corrida para perder o maior número de quilos no menor tempo possível.
O papel da nutrição nessa nova era
Talvez nunca tenha sido tão importante falar sobre nutrição para pessoas que estão emagrecendo.
Quando a fome diminui, precisamos olhar ainda mais para a qualidade daquilo que permanece no prato.
Não se trata de obrigar o paciente a comer grandes quantidades.
Trata-se de nutrir adequadamente um organismo que está recebendo menos energia.
E essa é uma diferença fundamental.
A pergunta deixa de ser apenas:
“Quanto peso você perdeu?”
E passa a ser:
“Como você perdeu esse peso, o que preservou durante o processo e o que está construindo para conseguir manter o resultado?”
É nesse ponto que o tratamento deixa de ser apenas sobre emagrecimento e passa a ser sobre saúde.
Conteúdo educativo. O uso de medicamentos agonistas de GLP-1 deve ocorrer mediante indicação, prescrição e acompanhamento de profissional habilitado. Este conteúdo não substitui avaliação médica ou nutricional individualizada.
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